17.11.09

TV


Ando muito ocupada. Entrou-me uma televisão pela casa dentro. Primeiro foi a curiosidade. Toda a gente diz que é bom ver o telejornal e eu também quis experimentar. Não aguentei mais de dez minutos. Se aquilo são notícias... Depois os canais de música. Dois serões, pelo menos, que esbanjei assim, com canais de música. De seguida, os canais franceses. Deliciosos. E depois as séries. Conclusão, ando um pouco ocupada por esta altura. Mas isto passa. Aliás, já começa a cansar-me. Outra vez.


14.11.09

Novembro


Venho enternecida do palácio sito na rua dos Desejos. Venho livre dos fantasmas do passado, que entenda-se, eu não tenho. Fantasmas que na verdade só se deixam alcançar por quem os imagina. Não perco tempo. Reitero: sou uma rapariga moderna e independente. Qual passado! Não ouço música medieval. Tudo menos isso. Mas gosto de Galahad, tenho aliás por Galahad uma paixão secreta e magnânima, ou não fora ele bastardo de Lancelot, o eterno sedutor da corte de Artur. Trago agarradas à língua as histórias contadas e tenho medo de esquecê-las. Cabe-me tudo isto dentro do vestido a culminar nos sapatos vermelhos de Doroteia com tantos poderes especiais que não há quem, honestamente, não se espante. Confesse-se, ninguém na verdade, em seu juízo, sobrevive aos desejos concedidos por uma fada madrinha benovolente. A magia também está nos saltos, em girar, rodar, deixar que se forme um balão de tecido na vertigem das pernas. Compridas, é evidente. E há sempre vertigens entre os desenhos que faz a roupa. Sobretudo a roupa de Inverno. A roupa de Novembro. É roupa a mais. Não combina com as ostras da mesa, o caviar e o vinho de veludo a combinar com o bolero que me protege os ombros do frio. Nem combina com a música que programada, noite fora, faz ecos nas curvas que sarcoteiam instintivamente. Nem combina com as tais histórias que passaram entretanto para debaixo da língua. E há uma vontade nas pontas dos dedos. na ponta da língua. A formigar-me e redemoinhar-me. Quero ainda descobrir como se pode um número perder dentro de um labirinto mítico. E gostava de chegar ao fim sem fôlego, prestes a espetar-me o coração num arame. Corajosamente. E de olhos abertos.
É possível que, quebrando a rotina, este ano me apaixone em pleno Inverno.


Musique pour le Weekend





Même si cette quête est insensée, je cours pour me sentir vivant

Viagens V


[...]
Sabe-se que os nomes dos lugares mudam tantas vezes quantas são as línguas forasteiras; e que se pode chegar a todos os lugares vindo de outros lugares, pelas estradas e rotas mais diversas, por quem cavalga carreia rema voa...
-Parece-me que reconheces melhor as cidades no atlas do que visitando-as em pessoa -diz o imperador a Marco, fechando o livro de repente.
E Polo: -Viajando percebemos que as diferenças se perdem, cada cidade se vai parecendo com todas as cidades, os lugares trocam entre si a forma a ordem distâncias, uma poeira informa invade os continentes. O teu atlas guarda intactas todas as diferenças:a provisão de qualidades que são como as letras do nome.
As cidades invisíveis de Italo Calvino (1990)


13.11.09

sexta-feira treze


Em sextas-feiras 13, reunem-se em bosques recônditos, introuvables, lettre par lettre, todas as figuras míticas do meu imaginário. Duendes, príncipes, magos, feiticeiros, filósofos, marinheiros, senhores lânguidos, gnomos, anões, panoramixes, todos acicatados com pós mágicos ou poções. Andantes éteros, enfim. Vêm ensinar-me truques de magia branca.


10.11.09

Admirável Mundo Novo


Aos poucos vou-me habituando. Aos nomes, aos sítios, aos cheiros, ao tempo, às novas estradas, à cama e à cozinha. Aos poucos vou aprendendo a cumprimentar, quem passa, pelo nome. O polícia da escola, o porteiro, a contínua, a cozinheira, alguns pais e colegas. A percepção do mundo novo vai-me abandonando. Surgem as rotinas, alguns rituais. E eu sigo. Inventando um pouco a cada dia.


4.11.09

A voz


A vida sem voz é muito mais simples.

31.10.09

Tão nómada


Dois anos, seis mudanças de casa. Muitas cidades e muitos mais quilómetros percorridos. Dores de cabeça e sempre o excesso de objectos. Tenho coisas demais. Coisinhas. Gostava muito de viver com menos. Ser mais desprovida. Não ter coisas. E ser livre.


29.10.09

Primeiras impressões


De uma escola para a outra o cenário mudou. De contextos sócio-económicos que comem o pão que o Diabo amassou chego à tradição das escolas favorecidas por alunos muito bem (com excepções que confirmam a regra). À parte isto, os aviões passam a toda a hora.
Abandono a vista esplêndida sobre a A28 para abraçar a Ria Formosa, o mar e o aeroporto. As cidades continuam tão velhas como as religiões. Entretanto mudou a hora. Um mau negócio, já se sabe, uma hora a mais de sono por um semestre de escuridão. Mas as noites ainda têm um cheiro quente de Verão. Das mãos, outrora peritas em quadros brancos e marcadores sintécticos, sacudo a toda a hora o branco do giz, tão puro, é verdade, e sente-se, há outros ímpetos mais agitados. Tudo se altera do Norte para o Sul, de uma ponta para a outra, ao viajar o sangue corre mais rápido. A vida renasce numa onda de energia que não sei de onde vem. Há muita água à minha volta, deve ser isso. No entanto a água é mansa. Aqui tudo é manso. As gaivotas não gritam nem perturbam como na Lota de Matosinhos. As vagas não sobem os muros, agitadas, nem há marinheiros e pescadores moribundos e tristes na berma da estrada a vender o seu peixe. O peixe tem outra classe. O porto tem outros barcos. A cidade tem outras cores. É bonito.


25.10.09

La traviata


Verdi é tão trágico. Faz as personagens supirar de amor. Enreda-as em doces delírios e depois, sem mais, num choro lírico muito agudo e agonizante, sempre fruto do desengano, mata-as.

Comentários


Tenho pensado, por insistência de quem me lê, em voltar aos comentários. Talvez. talvez agora que estou longe dos comentadores, possa fazer sentido...

Mais viagens


Fiz-me à estrada, crente naquela velha máxima que diz que a vida é uma viagem. No início tudo é novo... o meu sangue ferve... quero absorver as pessoas, as estradas, os caminhos, as paisagens. Não caibo em mim. Não durmo de noite, excitação à flor da pele, sede que os dias passem. E para trás? Tanta coisa. Sobretudo a buzina dos barcos da entrar no porto "poooohhh". Que falta me faz. Atravesso o Alentejo e penso que os barcos vão dentro de mim. Chego ao Algarve e tenho a certeza, aqui também há barcos. E há memória.


21.10.09

Moby Dick


Um clássico que me envergonho de ainda não ter lido. Começo hoje a redenção.

14.10.09

Viagens III



"Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
- Viajas para reviver o passado? - era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco: - O algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá."



As Cidades Invisíveis, Italo Calvino

12.10.09

Magia Branca XXX


Entre o labor da fala, as histórias que se contam, pequenos gestos sem consequência, entre a saudade, a vontade, ou mesmo o arrependimento, vale tudo. Menos mentir. Menos esquecer. Sem vergonha e sem medo.

Le départ incandescent


A bela ideia das saudades do futuro desenha-se no horizonte de cada pequeno diálogo que encenamos à medida dos nossos sonhos. Tenho saudades desse futuro. Ilusionismo de uma noite de Outono.Por agora, durmamos em paz


No fundo do túnel


No limiar, o novo mundo desabará a meus pés. Espesso. Denso. Líquido. Vermelho de sangue materno. Há menos espaço para os delírios da adolescência. No limiar, sei que poderei embarcar em qualquer porto. Um porto para bêbados nocturnos. Não importa o destino. Será de noite, porque os homens predestinados trabalham de noite. Que interessa a voz? A voz é só um delírio no meio da solidão. Um ruído, uma língua que não compreendo, um nome murmurado devagar no silêncio espesso. J'aurai mes secrets dans une île. Des secrets naîtra une vie sans péché. Malas feitas, porta fechada, soluços entrecortados, fujo do espaço exíguo com uma bola de saliva atravessada antes da voz. Dela nascerão as mais belas palavras de amor. Amanhã.


11.10.09

O Marinheiro que perdeu as graças do mar II


Formando um só todo, havia a lua e um vento de febre, a carne excitada dum homem e de uma mulher, suor, perfume, as cicatrizes duma vida no mar, a confusa lembrança dos portos de todo o mundo [...].


O Marinheiro que perdeu as graças do mar, Yukio Mishima

10.10.09

O marinheiro que perdeu as graças do mar



Noboru nunca chorava, nem sequer em sonhos, pois, para ele, ter um coração duro era motivo de orgulho. Uma âncora de ferro, grande, resistindo à corrosão e desdenhando as lapas e as ostras que devastam os cascos dos navios, que se afundava, pulida e indiferente, através das montanhas de vidros partidos, pentes desdentados, cápsulas de garrafas e preservativos, e ia entrerrar-se na lama no fundo do porto- era assim que ele gostava de imaginar o seu coração. Um dia havia de ter uma âncora tatuada no peito.



O Marinheiro que perdeu as graças do mar, Yukio Mishima


9.10.09

Entre a viagem e a memória


Voltar a andar de comboio é uma viagem de memória aos solavancos. Sinto outra vez a atribulação de Paris entre o aeroporto e a gare Montparnasse, viagens sem conta para te encontrar, os corredores enormes cheios de gente e depois as viagens regionais, no Oeste francês, ao sábado de manhã para chegar à praia. Lembra-me também Itália e as horas intermináveis nas carruagens, de uma cidade para a outra. Em tête à tête, lugares criteriosamente escolhidos. Sempre com as malas. O casaco de couro e o secador do cabelo. Os livros e a música. As viagens de comboio são também todas as pessoas que já esperei com mais ou menos ansiedade na Estação de Campanhã. E Berna e Genebra. As viagens mais pendulares do meu coração. Andar de comboio é ainda Lisboa. E o desejo de sair do sítio.
Até já.


7.10.09

A Viagem II


Para encontrar o futuro é preciso deixar cair dos bolsos a memória.

A viagem



A sofreguidão, a volúpia, colheres cheias de alimento, de carne dura e tostada ao sol. Tudo a arder, em espasmos e estremecimentos luminosos. De dia e de noite. Nos entretantos da carne, como a antecipar o Outono, arrepios de frio e silêncio apaixononado e devoto, de um vazio imputrescível cheio de nada, rigorosamente nada, para dizer.
Agora, mexo as mãos, reviro o olhar, ergo as pernas, estico-me e encolho-me, a confirmar que tudo funciona ainda depois da carne. Mas já sei que sou, acordada, uma queimadura, um gemido, um incêndio a transbordar o Amor nas costas de alguém. E imploro jejum depois do Carnaval. Que se me alucine a memória em tons de laranja, afogada em repetições de quotidiano, por favor.



5.10.09

O direito de ser anacrónica




Ouvir Tindersticks com atenção em 2009 e acordar todas as manhãs de Outubro com Barry White. Como se estivesse apaixonada.

3.10.09

Tindersticks


Desde que comecei a ouvir Tindersticks nunca mais fui a mesma.

Mémoire sale


Fui visitar um amigo há uns anos. A meio da estadia, tive uma daquelas saídas cinematográficas: quis ir embora. Acontece-me muitas vezes dizer "vou embora" e começar a ir sem mais. Como ele fechou a porta, decidi ir pela janela. Atirei a mala do segundo andar e preparei-me para me atirar a seguir. Não me deixou, amigo tão insensato. Atou-me na cama , trouxe a mala e disse-me que só ia embora depois de me apaixonar por ele. É possível que na verdade ele tenha dito outra coisa qualquer e eu esteja a confundir esta parte com um argumento digno de Almodóvar. A verdade é que o mesmo amigo, dez anos depois, insiste para que o visite. Deve achar que já não salto janelas... Tão insensato.


Música para o fim-de-semana (prolongado)





O homem nunca me inspirou confiança. Sobretudo em concerto. Tenho medo dele. Assume comportamentos diabólicos. Mas este fim-de-semana vem tão bem acompanhado...

1.10.09

Outubro




Em Outubro, o início é legítimo.
Fazem-se planos. Sonham-se futuros. Ordena-se o universo. Estabelecem-se pactos.
As temperaturas são indecisas (e vagarosas).

Em breve falaremos das horas e das noites.

A sinceridade também é reflexão


Duvido muito dos homens que dizem que são até sinceros demais. É bonito. Soa bem. Mas não faz sentido.

Almodóvar II


Aprendi sempre muitas coisas com as heroínas de Almodóvar: a gritar, a gemer, a fugir, a usar saltos altos, a caminhar sobre os homens, a chorar, a exagerar, a morrer, a trair, a ameaçar, a descobrir, a discutir, a, vingar, a beber e a roubar corações.


25.9.09

De bonnes raisons


Aposto como esta história do Verão acontecer em Setembro, quase Outubro, com este sol desmedido que ainda aquece, é um esquema mágico, uma conspiração planeada, para me fazer crer que afinal Portugal é um óptimo país para se viver. Como dizia a outra, os outros países europeus, fantásticos que são, podem ter a segurança social, mas por aqui temos o sol, um disparate é certo, mas enfim, sempre ouvi dizer que não se pode ter tudo...


Séraphine





O que eu mais gosto em Séraphine é o french touch: aquela imagem idílica do campo, da ruralidade francesa, a natureza e o restolho, o verde e a forma como as árvores ocupam o espaço. Vivi em França, no campo, e não vi nada daquilo que Provost filmou. Mas gostava de ter visto.


Efemérides


Curiosamente, o tarifário do meu telemóvel é sempre o fiel espelho da minha atribulada e insconstante vida sentimental.

24.9.09

O dobrar da estação


No trocar das estações, sinto mais as variações de humor. Hoje não gosto nada de certos carros, seja lá em que cor forem, mas sobretudo quando são brancos e têm números na matrícula que identificam regiões. 33, 49, 67 ou 44. Nem sempre acho graça a contar os carros vermelhos que passam. Nem sempre vivo o Crash com a mesma passividade. Sobretudo no dobrar das estações. Creio que a cultura esotérica é muito enfadonha e apesar de me ter aventurado a cantar um ou dois mantras não me tornei mais crente nem senti essa harmonia toda com o universo. Nem de olhos fechados, fará nos momentos em que espreito para ver se os outros realmente acreditam. Não gosto nada que me compreendam. Prefiro os meus subdramas disfarçados. Por subdramas disfarçados entendo o desafogo da tensão, dores muito maiores que parecem inúteis. Não gosto de histórias lentas. Nunca soube explicar porquê. Nunca soube explicar grande coisa, além da sintaxe do verbo haver. E é tudo.


22.9.09

O Outono


Acaba o Verão e os amores de praia morrem na areia. Não há peito que resista. Repete-se a tragédia velhíssima em cada ano. Os marinheiros fazem-se ao mar e levam com eles corações partidos carregados no bolso das calças. A vida é tão repetitiva de ano para ano.
Vejo-os partir, do lado cabisbaixo do Porto e tento acenar no meio de tantas outras mulheres que vivem a tragédia do meu peito. E finalmente, ao escurecer, volto àquela que foi a nossa casa e troco os lençóis da cama e queimo, outra vez, tudo o que há para queimar, os disparates que me deixaste nos momentos de folia, as mensagens de amor e as promessas, queimo sobretudo as promessas, amarras ardentes que me ligam a ti. Finalmente limpo os olhos, seco as lágrimas e procuro no Outono a vingança para a dor: o fingimento e a mentira.
Aparentemente estava escrito.


20.9.09

o Vazio


Os homens que são semáforos podem até exercer sobre mim algum fascínio, mas serei sempre incapaz de amar aqueles que são desertos e nem sabem disfarçar. Nunca leram, por exemplo, nenhum romance de Marguerite Duras. Um desastre, portanto.


Magia Branca XXII


Há homens que deixaram de ler o meu blogue porque se apaixonaram por ele e não foram correspondidos.

So much confusion


Não sei se é possível que a escrita aconteça sem a leitura. Nunca antes me debrucei sobre o assunto. As minhas leituras têm sido tão pouco poéticas, que me envergonho. História da língua, linguística comparada, algumas notas políticas e ainda Napoleão. Sigo as leituras dos outros como um voyeur. Não é por mal, entenda-se. Não cedo a um processo de cálculo. É espontâneo, acontece assim. Também não sei se a escrita é possível entre a mais plena felicidade que é como quem diz, entre o caos absoluto da vida mundana. Perdi as coordenadas todas há uns meses. Relógios, refeições, horários, noite, dia, rotina, a distinção entre o bem e o mal... Só continua distinta a fronteira das estações, e para já, ainda é Verão.


Filipe


Sou sempre demasiado lenta nestas coisas: ainda que voltaste e trouxeste poemas.

Questionário de Proust II


O meu pior defeito é a teimosia. Aquiesço. A minha ideia de felicidade é a conjugalidade. Deliro. A minha ideia de infelicidade é a conjugalidade. Hilariante. Não preciso de responder, quando toda a gente já sabe as respostas.


La rentrée


Setembro é miticamente o mês da rentrée. Tretas. Depois das férias, que toda a gente já teve mais ao menos, volta-se a algum lugar e recomeça-se. À escola chegam todos com mais problemas do que antes das férias. Ninguém fez o pleno de energia. NInguém descansou. Tretas. Chegam ainda mais problemas: ou morreu alguém, ou houve uma separação, uma doença, um cansaço inexplicável de existir, que impede de trabalhar comme il faudrait. Demasiados problemas, mais pesados ainda quando, perante os meses que se avizinham, não podemos aliciar a boa disposição com a bandeira das férias. Porque acabaram, mítica miragem da felicidade. Para já. Em Outubro, julgo que tudo voltará ao normal.


19.9.09

Música para o fim-de-semana




Para contrariar o logro, não ouço só vozes melancólicas (a difícil arte de Al Berto), também ouço coisas eléctricas e viciantes. What is love without lust? E um destes dias também faço um penteado assim, muito pop...


17.9.09

Tremendous Dynamite


As tuas mãos são um mistério. Acontecem no meu corpo quando menos espero.

Viagens


Em Outubro vou à Irlanda pagar uma promessa. Há viagens assim, com mais fé que outras.

15.9.09

"Agora que o silêncio é um mar sem ondas"



Tango Flamenco


Imagino o que faz no seu trabalho e fora do seu trabalho. E se fuma, se bebe vinho de Bordéus ou bebidas espirituosas, se adormece facilmente. Se é na verdade rude e fala durante o sono ou se apenas o diverte ser simpático, de vez em vez. Se é daqueles que escolhe certeiramente no restaurante, se cozinha ou se tem gatos. O que pensa de tudo isto ou ainda melhor o que sente de tudo isto. Se faz desporto e me leva para casa em formato A4. Se tem filhos perdidos por aí ou se tem fios de que perdeu a ponta. Se tem muitas, demasiadas pontas soltas. Se se encosta habilmente ao desassossego do trabalho ou se faz outras coisas e não quer dizer. Se a alma voa ou se usa disfarçadamente a ironia de cada vez que me fala, como quem goza. Onde andam seus pais ou o que mais gosta de fazer ao domingo à tarde. Se não vive sem mar, sem ar, ou sem amar.


14.9.09

Rencontre




Branca Toledo em Paris, 2009

A banda sonora: Fredo Viola. The turn.

13.9.09

As minhas casas


Acontece-me às vezes ter amigos que já não vejo há tempos e com quem combino um café em fim de serão. Acontece por vezes que me vêm buscar a casa. Acontece ainda que se enganam na casa e muitas vezes esperam à porta de prédios onde já não moro há muito tempo. Crédulos. Confusos. A dar toques para eu descer. E eu explico, devagar, que nem sempre sou constante.


Abrazos Rotos



Pedro Almodóvar é um dos meus realizadores favoritos. Dos filmes hilariantes aos mais dramáticos. Bandas sonoras de cortar a respiração. Personagens intensas, vivas, únicas. Aprecio-o de uma ponta à outra. Vi todos os filmes. Decorei alguns scripts. É outro mundo. E depois com realizadores assim, que já criaram tanto, cada novo filme é um desafio maior. Como se cada novo filme tivesse de ser melhor, sim melhor, que o anterior.
Fui ver Abrazos rotos. Esperava um bom filme. Talvez não melhor, mas capaz ainda de despertar emoções. E houve algumas. Não é, por isso, um mau filme. Mas percebo menos os lugares comuns do cinema que decidiu filmar. À sua maneira, é certo.


11.9.09

Les chansons d'amour II




Oui j'ai déjà aimé
Pour la beauté du geste
Mais la pomme était dure.
Je m'y suis cassé les dents.
Ces passions immatures,
Ces amours indigestes
M'ont écoeuré souvent.

7.9.09

O Eterno Retorno


Eu gostava, agora sinceramente, gostava mesmo de me entregar, sem pudor, à boca de alguém que pudesse explicar-me (mas explicar-me muito bem) que ideia misteriosa é essa que Nietzsche trouxe ao mundo. Espero voluntários. Ofereço o vinho.

Aos que estão perdidos e não acreditam em magia branca


A esses que estão perdidos e não acreditam em magia branca eu desejo melhor sorte. Ou então alguma disponibilidade.

Gripe A II


Para aqueles que se questionam sobre o meu estado de saúde: já estou melhorzinha obrigada. Transpirei tanto durante dias a fio, a cada chá consumido com mel, que quase mudei de pele.


3.9.09

Luz nas Horas


Ainda a propósito dos melhores amigos. Gosto daqueles que me regam as plantas na minha ausência, mesmo se sem perfil de jardineiros, quase as deixam morrer por falta de amor. Daqueles que me fotografam a casa na ausência, me lêem os livros e me escrevem cartas de um amor que já dura há 9 anos. Obrigada.

Gripe A


Estou doente. Uma espécie de gripe A. Lá na escola até já temos um líquido vermelho para lavar as mãos depois de sorrir e apertar a mão dos alunos. Mas eu já sofro. Uma dessas patologias estranhas e modernas que se propaga como o fogo no Verão e me rouba a energia. Os amigos são legítimos. Tal e qual como os acentos nas palavras. Completam-me. E que seria das doenças sem os amigos ao lado? Um deserto.

30.8.09

Sacrifice


É verdade, eu sei. Vai ter de haver um momento em que vou ter de me fechar em casa para organizar o início de Setembro e evitar catástrofes maiores. Só eu. Amanhã.

28.8.09

Peçonha de fim de noite, princípio da manhã


As frases curtas são uma forma de expressão eficaz. Traduzem, como nenhuma outra forma, a minha respiração, ultimamente. As frases curtas matam a verborreia desnecessária às tantas da manhã. "Seja razoável."E se fosse tudo mentira? Tudo até as manhãs que começam às oito da manhã? Tudo. Até o Verão. As noites de amor tresloucado em frente à Exponor. Tudo. Até a minha vida. Tudo, sobretudo o amor. Percebem, portanto, os críticos das frases curtas, que não poderia escrever de outra forma que não com frases curtas? A boémia do meu corpo não condiz com o meu coração dilacerado. Mas faz de conta. E que estranha forma de vida...


Blood on my hands


Já sei que o Verão vai acabar. Dói-me o corpo todo. But let's dance. À noite durmo sozinha.

O teste do amor, já.


Não há tempo. Os loucos procuram-se em casas de banho públicas. Parecia que algo não estava bem. Consta afinal, ciclos mensais e duas luas, que está tudo bem. Claro que ainda nada voltou ao normal. Cinco dias e ainda a mala não se desfez. Está certo. As malas não se desfazem sozinhas, ao contrário das pessoas. "Não tive tempo." Pois não, ainda não parei para pensar e respirar a tal solidão dos lençóis rosa. Ou seja, sou também eu uma marginal a deambular entre o Porto e Matosinhos. Se tenho saudades? Cansa-me já tal sentimento de nostalgia melancólica e por isso entre as brumas e reminicências do passado, sonho com o futuro e sons arabescos. Sonho com paz. Estou em guerra há demasiado tempo. Que acabem as lágrimas no canto do olho...algum dia acabarão?


Noites de Verão


Respondem as pernas no sítio onde deviam estar os braços. Os homens à noite são pardos.

23.8.09

Mood Indigo




21.8.09

Ponto da situação


O último filme do Tarantino vai ser o furor do fim do Verão. Porque é excepcional. Eu continuo em viagem. Há vários tipos de viagem. As minhas são sempre mais dramáticas dada a minha aguda sensibilidade. Tenho lido a biografia de Napoleão Bonaparte, redigida por um historiador reconhecido da Academia francesa. Respondi a todos os emails e deixei muitas emoções pendentes para outra estação. Por agora já chega. O que vida me ensina tem duração curta. Aprendo e esqueço no dia seguinte. Dormi com homens de origens míticas e volto ao silêncio da minha casa em breve. Não desejo estar só mas procuro a tranquilidade dos meus lençóis cor-de-rosa. E a minha música. Sobretudo a minha música. As cidades italianas são belas, é a impressão que me fica. E França é uma delícia. Paris. Mas há demasiados franceses orgulhosos de serem franceses. Fumar não é assim tão mau para a saúde. Se os cigarros forem fumados com moderação. Como as emoções. As emoções também devem ser fumadas com moderação. Tenho saudades dos meus marinheiros. O facebook é uma treta que nos faz encontrar o vazio do tempo. Nenhuma língua me preenche mais a alma que o português. Viva lá onde viver. O francês é erótico mas cansa-me. Também quero repousar o erotismo. Tenho a língua cansada das viagens. Decidi por isso partir e segunda-feira regresso a casa deixando para trás mais um Verão de equívocos.
Ternamente,
Branca Toledo

19.8.09

Valsa a três tempos


Os amantes semeiam-se com ardor na Primavera, colhem-se ardentes no Verão e esmorecem moribundos numa berma do Outono.

11.8.09

Fabula de Veneza - Finalmente




Leaving France


Uma semana e meia depois, quilometros de emoçoes percorridos, deixo este pais atras de mim. Procuro entretanto emoçoes mais quentes, um pouco mais a Sul. Até breve.


Amantes


Passei a ferro as camisas de cada um dos meus namorados. Dedicadamente. Com delicada paixao e sincero entusiasmo. Sao eles hoje os fiéis seguidores deste espaço. Mas julgo que é pura coincidência.

10.8.09

Litania do amor


Je connais chaque centimètre de ton corps et la moitié de ton âme. Les dés sont sur la table.

9.8.09

Historia de França


Do panteao frances contam-se 69 reis.

(ainda sem acentos)

Lugares de Culto




Vento. Sempre muito vento.

6.8.09

Le bonheur près du coeur


E depois, nesta confusão premeditada e ofuscante do mes de Agosto, vejo-me finalmente tranquila em frente ao mar, o cabelo agitado pelos ventos da Normandia, perto da zona de desembarque dos Aliados. Não desejo mais que isto.

Lado a lado


"fiando a sua teia da força do presente, orienta-se nessa época para um futuro de antemão utopico pela mediação primordial, obsessiva do passado."

Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade.




A falta de acentos é circunstancial...


4.8.09

Il y a le feu partout


Nas possibilidades do desencanto o que fazemos para sobreviver?

3.8.09

Ne me quitte pas


Sou um corpo que espera que espera a anulação.

31.7.09

Sem olhar para trás... Welcome Home, darling.




Naturalmente que a vida passa e nada será como antes. Terei por exemplo saudades.

We know too much about love




Fornication in space


Fornication in space é o nome de uma das músicas que compõem a banda sonora do Chungking Express. É com ela que me despeço do mês de Julho, deste ano lectivo, da minha gente, é com ela que me despeço, a entrar na porta do avião. Vou de férias. Para Este, como sempre. Não sei quando volto. Aqui voltarei de certeza, para deixar as minhas impressões. Mas não sei quando volto a casa. Se calhar nem volto. É um sonho antigo e romântico: partir e não voltar.


28.7.09

+09tyq

27.7.09

Vicious


Acordei no caos. Dentro de um caleidoscópio. Insensatamente.
Pelo que os dedos acordam devagar para as letras.
Na verdade, ainda é muito cedo para acordar.

Anúncios proféticos e verdadeiros


Nunca mais me apaixono.

22.7.09

O meu coração não é mundano


O meu coração é um deserto. Insiste na sede, insiste na aridez, insiste na coragem desenfreada. Não tem medo do escuro, não medo do desconhecido, não teme o vazio das horas, o meu coração teme apenas o fim da caminhada.


Noites Lupanares II


Há emoções ancestrais que qualquer noite abraça de bom grado.
A sorte é que o meu vizinho do lado trabalha de noite e dorme de dia...

18.7.09

J'écris pendant la nuit...





O passado é um lugar sagrado que nenhum presente substitui.
Continuaremos porém a caminhada.


Entre mim e o Miguel


"Hay algo que, a falta de otro nombre, llamaremos el sentimiento trágico de la vida, que lleva tras sí toda una concepción de la vida misma e del Universo, toda una filosofía más o menos formulada, más o menos conciente. Y ese sentimiento podem tenerlo, y lo tienen, no solo hombres individuales, sino pueblos enteros."


Miguel de Unamuno, Del sentimiento Trágico de la Vida.

6.7.09

Lufoscopia (do momento)


Há, entre os espaços ligeiramente salientes das cristas dos teus dedos, uma violência adormecida que se liberta só em mim. Um fruto de Verão maduro.
Depois vem a ausência. O tempo em que escreves de longe para saber como estou. Não hesito, como sabes, em saudar-te, entre a distância. Gostava por isso de dizer-te que por aqui cheira a mar. À incerteza de um caminho consentâneo com todas as sombras do porvir, que ignoro. Por aqui há lapsos de espera paciente que a memória, brilhante ferramenta dimensional, ajuda a a suportar. Falta pouco. Eu sei. Mas ainda assim a relutância e a preguiça dão as mãos e perdem-me na ausência. Caminho então mais devagar. Sem ansiedade. Com demasiadas certezas da verdade. E não venho cá tantas vezes quantas as que gostaria.
Há uma verdade eterna que não compreendo mas que me persegue: La Vie est ailleurs*. Seja esse o meu eterno refúgio. As férias no horizonte, por exemplo.



*Rimbaud.

O Mundano


Não tenho televisão. É um objecto que não possuo, não me ocupa espaço e não me faz perder tempo. Ouço as notícias em segunda mão, aqui e ali, e de mim para mim agradeço a cada dia o silêncio que vivo em casa. Estou convencida que não perco nada. E sou dispensada de uns quantos disparates.

22.6.09

Paz


Se há coisa que me cansa de morte são as histórias que se repetem...

O Calendário do Corsário


O meu imaginário já de si extremamente romântico anda inebriado com as "Utopias Piratas" de Peter Wilson... Acho que por isso nem vou festejar o S. João... tenho tantas aventuras para viver entre as minhas 4 páginas...


18.6.09

Melancolia




A paixão


O que motiva a minha paixão é o próprio sentimento inebriante da paixão. Ao contrário das pessoas que conheço, eu não me apaixono por pessoas. Apaixono-me por sentimentos.

10.6.09

Literatura


A propósito do meu empenho em Ler Ana Karenina, disseram-me há dias que toda a gente sabe como acaba o livro, é um clássico. Eu não sabia. Cheguei hoje à página 664. E não sei ainda como acaba o livro (702 páginas, nesta edição)mas descobri o que reservou o autor para Ana. E sofri. Estava anunciado desde a primeira parte, é verdade... mas eu quis ignorar todos os sinais. E ainda agora pergunto-me: o que vale mais, a tranquilidade ou a paixão?


A grande desilusão - Parte II


Sou demasiadas vezes o que os outros crêem que eu sou. Invento até histórias para me tornar mais verosímel. Excepto quando escrevo. Só aqui eu sou eu. Embora não interesse a ninguém senão a mim.
Era então tempo de saber calar, quando me ponho a falar como louca, à procura de companhia no meu delírio, das minhas neuroses, dos meus desesperos, das avalanchas de lágrimas, do medo, da exposição inútil e embaraçosa do desejo, da crença, da esperança tonta, do futuro. Ao invés, procuro ainda nos outros a compreensão e, às vezes, por descuido, procuro o consolo, procuro enganar a solidão, aligeirar a tragédia permanente em que vivo.
É evidente portanto, sei-o claramente, que o meu problema nunca foi a violência do meu sentir ou a entrega às emoções, foi sim (e reparem no subtil pormenor) a confiança nas pessoas, a dificuldade que tenho, anos e anos após a grande descoberta, em entender que a vida é e será sempre um caminho solitário.

No futuro, dedicar-me-ei mais à literatura.


8.6.09

Com o tempo habituei-me




Magia Branca XIX


E com um gesto magnífico
Desembaraço o sal dos teus lábios
Aturdido
Surpreendido
Apanhado
Mordi-te as pontas dos dedos.
Não há mais nada a fazer.
O feitiço
O Senhor da Pedra
Os sacríficios oferecidos
noite dentro
Temos 13 anos.
Outra vez.
pela frente.
E por favor:
Deixem-me em paz.
Chega de perguntas.
Baptizados.
Festas de aniversário.
Eleições.
Testes.
Noites.


Tenho lido demasiados poetas anarquistas



O que me atormenta é o limbo do eterno retorno. A cópia, a repetição, o círculo. Não sei se algum dia serei capaz de recompor-me da melancolia do passado, das saudades do futuro. A minha vida é um drama. Atormentam-me os silêncios das decisões. Quanto tempo tenho? Quantas vezes ainda posso apostar na sorte grande e perder sem desistir? O movimento contínuo gorgoleja aos beijos por dentro das minhas vísceras. é tudo tão inútil. Mas continua. É repugnante. Mas não me interessa. Tenho ainda o direito de ser uma mulher infinitamente excêntrica. Sem as clássicas viagens intelectualóides e tentadoramente espirituais à Tailândia. Porque haveria agora de ir à Tailandia ou a qualquer outro destino exótico na moda: a Argentina, o Brasil? Sim Porquê? Como se me interessasse o espírito, a cultura, o mundo. Eu que sou tanta carne. Eu que sou tão indiferente. Eu que vivo com a pele e a emoção que lhe está por baixo. Que me interessa? Que adianta enganar-me com maiúsculas? Sinto-me florir e sei que qualquer coisa chocalha entre as pétalas. E se for Paris? Não é a cidade do amor?



As tardes viradas para a ponte da Arrábida... e o sol




Música para este tempo




"Il faut que tu m' explique un peu mieux
Comment te dire adieu"

Wie schön das Susana jetz Deutsch lernen will


As letras vão apagar-se.

5.6.09

Junho


Este blogue é um terreno em poisio. Não está abandonado mas espera algo. A fertilidade reconstrói-se. Junho é o meu mês favorito. Que tempo poderia restar para blogues quando os dias são tão intermináveis? Há fogueiras místicas em todo o canto. Não sei, por isso, que faça. Além de esperar Julho com muita paciência e alguma expectativa. Além disso, sim é verdade, estou apaixonada. A tragédia do costume... Tem sido assim todos os anos sem excepção.


Melopeia


Les files de mille neuf cents quatrevingt auront bientôt trente ans.

1.6.09

Crise


Há demasiadas versões da minha história. Também eu me confundo às vezes quando: "eu disse isso?" enredo-me nos meus labirintos como ninguém e já não sei o que tenho como verdade. Não posso mais.


28.5.09

Amplexo


Uma tarde soalheira subimos por encostas difíceis, paisagens lânguidas até um espaço onde não havia (quase) ninguém. Só vento. Despimo-nos muito devagar e ficámos quietos a ouvir a natureza. Alguns pássaros da Primavera, o restolho, a folhagem. Olhámo-nos demoradamente como se estivéssemos apaixonados. E continuámos quietos. O olhar é um instrumento do amor. Também ama. Também come. Também sente. Por isso, quando nos debruçámos sobre a pele já se antecipava cada gesto. As mãos que seguem os olhos. O vaivém que segue o desejo. O tempo interminável por nossa conta. A certeza que a memória se funde nas pedras em que nos deitámos. E fomos felizes para sempre.


25.5.09

Música para a semana (Back to work)




That's how strong my love is

Esperar amanhã e ver se é verdade


Inclinar a cabeça e perceber que, afinal, dominar os fantasmas do passado é um jogo que apenas exige concentração.


Viagem ao princípio do mundo



E depois disto, é sempre certo: nada será como dantes...

23.5.09

Um dia será necessário enfrentar a verdade


On n'a pas toujours 20 ans.

Escritores extintos e fora de moda


Não te conheço - confessou-lhe Teodoro Zweifel. - Tu, justamente tu, a falares assim? Tu que me procuraste porque te interessam os homens um pouco insólitos, as estéticas novas, as ideias en «rodage», as verdades ainda não expressas? Tu que abandonas as coisas que te agradam ainda, com receio que se peguem a ti quando já não te agradarem? Tu que durante o nosso passeio de Ostende a La Panne e de La Panne a Ostende, ao longo das dunas, te apresentaste como uma mulher tão viciada de complicações, que quase me provacaste tédio? Tu que me disseste «Se olho dentro de mim mesma parece-me ver uma página cheia de multiplicações»?


Loura Dolicocéfala de Pitigrilli

E ela, ela não respondeu logo. Pudera! Que aflição. É doloroso saber as respostas de cor.

22.5.09

Provérbios


Eu aflita que não vejo os semáforos porque são demasiado largas as avenidas e ups estava vermelho, ai, ai, aflita que o carro é demasiado comprido e o lugar pequeno, eu a praguejar que não conheço a cidade e por isso me engano, eu desastrada de um lado para o outro subida e decida. E o senhor, de improviso, empenhado no esforço da tradução pergunta-me se eu sei que:
Quando o camponês não sabe nadar a culpa é dos calções.


21.5.09

A Ribeira Sacra




O eterno retorno


A teoria já é velha: a tragédia e a comédia de voltar são um fado eterno.

Bouillonement



Serait-il possible de tomber amoureuse en 10 jours?

15.5.09

Passion come back: emotions and drama



O fausto da cintura delgada ao cimo das pernas compridas e um braço enlaçado a compor o drama. Basta um braço.

14.5.09

O Sil leva a água, o Minho tem a fama




13.5.09

Esmeralda



De todas as mulheres que cruzaram Corto, Esmeralda foi sempre a minha preferida.

Magia Branca


Hoje estavam desenhados esplendorosos grãos de saudade e mais mil coisas picantes no fundo da minha chávena de café. Ao que chega a magia branca.

Matosinhos




Havemos de regressar até à eternidade*


São as minhas pernas que me atravessam até à praça da tua boca. E não há nisto qualquer engano. É tudo o que desejo à tua chegada.

*ou havemos de regressar à eternidade

Estas e outras viagens


Não estou em terra. Encontro-me de momento embarcada entre as brumas dos sentimentos. Em viagem, ainda pelo mar. Terei no entanto cuidado para que a alma não fuja, enfeitiçada, enquanto o vento está de feição.

8.5.09

Tempestade no mar (alto)


O trabalho do mar é bastante perigoso e muito duro, se não for mais deixa mazelas na alma, destrói o silêncio, a vida, a sensibilidade e depois é preciso muita coragem para só ver mar, mar, mar. Além do mar, dessa irrequieta realidade que restaria senão? Há o mau tempo e a solidão. Os relâmpagos que são má companhia a queimar o olhar. Há os trovões que entoam, entopem e destroem. Há o granizo, de vez em vez, que perfura a proa e o coração saudoso dos marinheiros que resistem e os enjoos dos homens perante um ou outro anzol que se aloja nas costelas na pesca do espadarte. O homem do mar sofre. E eu sofro com ele.


27.4.09

Cinco da manhã


Há homens inertes à beira de nada que passeiam pela madrugada como se fosse de dia. Não têm sono, não sentem cansaço. Encontrei-os sábado à noite. Era noite de liberdade, celebrava-se a contemporaneidade do dessentido. A solidão tremenda não tinha par e refulgia perante a música. A música do Porto também tem pronúncia, embora alguns pretendam afectadamente outras pronúncias mais eclécticas. Que mania enjoativa têm estes homens inertes cujo sentido da vida está para além da verdade. Vendem-se por sorrisos. Dois dedos de afecto. Três olhares na direcção certa.


Primavera


Em Abril o ciclo repete-se, o eterno retorno do amor. Apaixono-me. Perco o apetite. Os olhos brilham por nada. Treme-me o coração. Aumenta a energia. Tenho todos os sintomas.


Dia de Anos


Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal: porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa: que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!

João de Deus

22.4.09

A casa de chá





Qualquer criminoso que se preze volta sempre ao lugar do crime.

De imprevisto


Ser um dano colateral na vida de alguém será mais ofensa do que alívio no tabuleiro das emoções. Não convém lembrar quais as palavras proferidas antes da ressaca.

Hoje a manhã não foi muito produtiva




21.4.09

Anúncios proféticos e verdadeiros


Se não chover, amanhã tudo será diferente.

19.4.09

Anne karenine


As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira.


Assim começa Tolstoi.

You're my Mate




All I wanna do is get drunk here with you.




Phantom & Ghost


18.4.09

Tratado de paz por desistência


A minha melancolia é a dúvida, é a saudade, é o desejo de outra coisa que há muito se crê que tenha saído de circulação. Asseguro a mim própria que a hipocondria deste estado de alma é um lugar morto (a longo prazo). Procuro portanto ignorá-lo. Dormir ou sonhar até que essa mão nas costas, esse perfume sussurrado de orelha a orelha, essa outra mão no braço, os dedos que deslizam, e essas pernas que se entrelaçam desapareçam do meu imaginário nefasto, réplica pura e dolorosa das mais ternas fantasias que guardo. Já não digo mais nada. Não quero sofrer de incompreensão, por emulação excessiva de um pressentimento que não vale nada (o que vale um pressentimento?). Mas sei, ainda assim, porque o aprendi muito antes de ti, nos livros de quadradinhos, porque ouvi Gardel quando me encontrava noutros braços, porque a mitologia dos lugares coincide com a construção do meu terreno simbólico, que na verdade, o tango é uma dança demasiado intensa para se dançar com desconhecidos anónimos ou bonecos de trapos que se guardam na memória.


Pilares de Sabedoria


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.


de um poema de Eugénio de Andrade

(para os distraídos)

16.4.09

Crónicas de viagem





Un jour je viendrai et tu seras là.


Continuemos...


O fim-de-semana já acabou há muito... ficou no entanto algo esquecido no fundo do domingo, dos feriados, da quaresma, da ressureição...

11.4.09

Música para o fim-de-semana (prolongado)




10.4.09

Quaresma


Chegam ao fim os quarenta dias da quaresma, do jejum, da penitência, da oração. Acabaram-se os degraus para o ceú. O homem, do cimo da escada, olha em redor acima de tudo. E pensa: a morte deve ser algo parecido com este vazio.

8.4.09

A repugnância dos ecos



Existo perante a efemeridade dos homens. A nulidade das imagens.
Duvidar do caminho é um erro inútil.

Melodia antiga à queima roupa


Mon pauvre ami craindrait le futur, il craindrait l'obscurité, salir ses mains en essayant l'amour. Ah! L’amour tout le monde le sait : il n’est jamais immaculé ni vain. Mais mon pauvre ami, (je l'ai assuré) il n’a pas eu le temps tandis qu’il attend le temps. Le beau temps. Le temps du beau futur. Que cherchez-vous, mon pauvre ami, à découvrir ? Ce Monsieur, ce pauvre ami, craindrait la joie qui mordille le cœur. Mon pauvre ami (tellement pauvre) ignorait les aventures des pirates et le désir auréolé des plus sublimes frémissements. Il connaissait juste les livres (quelques livres, en fait) et la médiocrité. Mon pauvre ami ignorait aussi, les yeux bandés, le feu de mon cœur. Mon pauvre Monsieur, je vous assure, vous tournez trop pour arriver à nulle part, les mains dans les poches et rien d'autre. Et moi la petite fille (je ne suis qu’une fille du port, la banale fille du port) je vous regarde et j’ajoute à votre temps troublé et fou le rire de l’éternité flamboyante. Et je crois. Et je sens. C’est tout ce qu’il faut pour vivre.

6.4.09

A voz da sabedoria


O meu pai explicou-me muito pacientemente que as raízes só se ganham com a idade. Eu esperneei que não, que nunca haveria de ganhar raízes. Deus me livrasse de tal tragédia tão oca para a modernidade da tecnologia e dos transportes...

5.4.09

Dans Paris



Est-ce qu'il est vraiment possible qu'une histoire d'amour nous fasse sauter d'un pont?

4.4.09

Música para o fim-de-semana




Dançar e cantar. Tudo o que me faltava.

2.4.09

Niemals?


Os percursos nómadas, que tanto amo, entre horizontes difusos, às vezes calcinados, aos solavancos, descruzam a minha rota. Quase em círculos, que o mundo é mais ao menos esférico, vai-se-me a inteligência do tempo, do caminho, do destino.
E depois, ao acordar, algures entre as brumas, como na cosmogonia celta, sente-se verdadeiramente que o poder de um sonho é tão real como as pegadas de uma pessoa.


31.3.09

Uma certa vaidadezinha


Inauguro hoje, oficialmente, este lugar especial chamado casa. Hoje porque é dia 1 de Abril, e Abril, como se sabe, não é um mês como outro qualquer.


Mon amour,

J'attends le moment où le rêve devient la vraie vie. J'attends et j'attends, sur le port, les cheveux légèrement agités par le vent, que tu viennes enfin me chercher de l'oubli, de la solitude, de ce silence intérieur qui me tue peu à peu. Mon amour, j'attends et j'attends, un supplice à chaque instant, et c'est vrai que rien ne se passe jamais. Alors je me forge une complicité folle qui n’attendra jamais la perfection.
Mon dieu, où suis –je en ce moment ?

Em Branca Toledo


É verdade que por vezes é vergonhoso o abandono a que eu voto este blogue...mas mudou a hora, chegou a Primavera, os dias são mais longos e o pólen anda no ar. Isso explica muita coisa....

28.3.09

Viena-Bratislava-Budapeste



A viagem do Danúbio.

26.3.09

Ménage à quatre


Partilhámos sobre a mesa superlativos e melancolias de impérios perdidos. Com nostalgia.
Foi sobre a mesa, mas podia ter sido sobre a cama. O efeito não teria sido diferente.

Boa noite.


notas debaixo da porta


Un jour je viendrai et tu seras là.

25.3.09

O prazer também é peregrinação*


De quem é este cheiro? Por onde começam as mãos? A que sabem duas bocas? Que ofertas em cima da mesa para quem quisesse comer? Por onde andam as minhas pernas dentro de vós? Que monstro herege trazeis nos olhos? Que quatro mãos me pariram o desejo? Quantos mitos ferimos em nós mortalmente, esta noite? De quem são estes olhos que me poisam? Este ombro que mordo? Que diabo louvamos? Que arraial montamos com tão estranhas munições? Em que Inferno ardemos? Quem ardeu? Que pele lambi? Como consumi os gemidos? Queres ver? Que pilouros, rocas de fiar, poços? De quem são estas mãos? A que sabe a tripla sofreguidão? Olha. Os lençóis. Desalinhados outra vez. Como se fosse do vento.


*Revisitação a propósito da estação das flores.

Crónicas de viagem


Vienne paraît plus silencieuse. C'est une jeune fille parmi les villes. Les pierres n'y ont plus de trois siècles et leur jeunesse ignore la mélancolie. Mais Vienne est à un carrefour de l'histoire. Autour d'elle retentissent des chocs d'empires. Certains soirs où le ciel se couvre de sang, les chevaux de pierre, sur les monuments du Ring, semblent s'envoler. Dans cet instant fugitif, où tout parle de puissance et d'histoire, on peut distinctement entendre, sous la ruée des escadrons polonais, la chute fracassante du royame ottoman. Cela n'on plus ne fait pas assez de silence.

Albert Camus, L'Eté


23.3.09

Primavera


Também eu, com afinco, preparo o ninho no dobrar da estação.

Música para a Primavera


A música inaugura a Primavera.
Ludwig Van Beethoven festeja a alegria do sol numa sinfonia sem par (a mesma que marcou a Reunificação alemã). Temos, assim, em cadência, um programa sobejamente conhecido: Allegro ma non troppo - Allegro assai - Presto - Alla marcia - Prestissimo e outras maravilhas tais, que em compasso crescente, marcam a barreira invível do tempo: chegou a Primavera.
Orf também se adequa: Veris leta facies, Omnia sol temperat; Tempus est iocundum e a imponente Fortuna que dita as regras do tempo de boémia, frequente pelos idos de Março, no âmago dos corpos mais serenos.

Volodymyr Sheiko, director da Orquestra Sinfónica e Coro da Rádio Nacional da Ucrânia, é um ucraniano com muito bom gosto (a contrariar os estereótipos banais).


22.3.09

Mishima




O prazer de viajar: reencontrar um livro esquecido, cinco anos depois, na esquina de uma amizade, também ela um pouco adormecida na memória.

18.3.09

O fim do périplo germânico



Retiro-me por uns dias. Para Este. Em alemão mais uma vez.
Levo na mala o fim dos casacos e dos sentimentos de Inverno.
Prometo voltar vestida de Primavera.

Portas fechadas, janelas abertas*



As portas foram sempre um problema muito grande para mim. Sobretudo de manhã.

*Não sei se haverá direitos de autor, mas trata-se também do nome de um documentário de Serge Abramovici sobre a FLUP, os alunos da FLUP, os ex-alunos da FLUP e a vida. Voltamos sempre ao lugar do crime.


17.3.09

A minha geografia


ROMANCE DE VILA DO CONDE

Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
- Lembra-me Vila do Conde,
Já me ponho a suspirar.

Vento Norte, ai vento norte,
Ventinho da beira mar,
Vento de Vila do Conde,
Que é a minha terra natal!
Nenhum remédio me vale
se me não vens cá buscar,
Vento norte, ai vento norte,
Que em sonhos sinto assoprar...

Bom cheirinho dos pinheiros,
A que não sei outro igual,
Do pinheiral de Mindelo,
Que é um belo pinheiral
Que em Azurara começa

E ao Porto vai acabar...
Se me não vens cá buscar,
Nenhum remédio me vale
Nenhum remédio me vale,
Se te não posso cheirar...

Vila do Conde espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
- Lembra-me Vila do Conde,
Mais nada posso lembrar.
Bom cheirinho dos pinheiros...
Sei de um que quase te vale:
É o cheiro da maresia,
- Sargaços, névoas e sal -
A que cheira toda a vila
Nas manhãs de temporal.
Ai mar de vila do Conde,
Ai mar dos mares, meu mar!
Se me não vens cá buscar,

Nenhum remédio me vale,
Nenhum remédio me vale,
Nem chega a remediar

Abria de manhãzinha,
As vidraças par em par.
Entrava o mar no meu quarto
Só pelo cheiro do ar.
Ia à praia e via a espuma
Rolando pelo areal,
Espuma verde e amarela
Da noite de temporal!
Empurrada pelo vento,
Que em sonhos ouço ventar,
Ia à praia e via a espuma
Pelo areal a rolar...

Vila do Conde espraiada
entre pinhais rio e mar...

José Régio

16.3.09

Os dados estão lançados


Também eu muitas vezes aguardei a aurora divina enquanto as semanas quietas teimavam em não correr como corre o tempo normalmente. Foram os momentos de refrega, das armas sem ânimo, que aconselhavam a prudência.
Anos volvidos entre a solidão, de volta à vida, treme-se um pouco na incerteza, e nesse instante pequeno de indecisão, já o tempo não volta atrás.

15.3.09

Música para a semana




(encontrámo-nos por acaso. somos todos descendentes do indo-europeu)

textura. amanhã.


Vejo hoje o mesmo esplendor de uma fome negra que enceta a procura incessante da perda a caminho de uma espécie de destino que é imperativo carear. Não sei se terei coragem para ir muito mais além.


Próximo Passo


Dois mil quilómetros para Este.

A quietude da Primavera


O Senhor de restaurante, de atributos generosos, garantiu que ainda havia de chover muito por altura da Primavera. Citou um famoso provérbio e riu-se desdenhoso de todos quantos, estendidos ao sol, quiseram desfazer-se da profecia.
No que me diz respeito, não acreditei numa única palavra do que disse o senhor do restaurante de generosos atributos.

9.3.09

Doces manhãs






O prazer maior são os sábados de manhã em que tudo se demora sem as correrias da semana. Doces ainda são as manhãs de sábado soalheiras em que o sol também se demora.
Estes foram os meses da Foz, a Foz tranquila, recuada, velha, aquele ponto preciso de transição entre o rio e o mar, entre o doce e o salgado. E estão prestes a acabar.

8.3.09

Os cantos da casa


Reclamei muitas vezes da qualidade e do estilo de um certo restaurante de uma ruela do Porto para os lados do Tribunal de S. João. Não entendia aliás como podia tal espaço permancer aberto ao público nestes frenéticos tempos de ASAE. Até que finalmente, um dia em que lá jantava, se fazia ouvir um dos discos da Nina Simone e na parede alguém me chamou a atenção para isto:

Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.


David Mourão Ferreira


Nesse dia percebi muita coisa. E é disto que me alimento.
E na verdade, a comida nem é má.

Siddhartha


Siddhartha adquiriu alguns traços das pessoas vulgares, algo da sua ingenuidade e da sua ansiedade. E no entanto invejava-as, invejava-as tanto mais quanto mais se parecia com elas. Invejava a única coisa que lhe faltava e que elas tinham, a importância que atribuíam às suas vidas, a intensidade das suas alegrias e medos, a angustiada mas doce ventura da sua eterna capacidade para amar. Estas pessoas estavam sempre apaixonadas, por si mesmas, por mulheres, pelos seus filhos, pela honra ou pelo dinheiro, por planos ou por esperanças.

7.3.09

Vincent Delerm & Jeanne Cherhal
Duo para o fim-de -semana



Porque te vas?






Todas las cosas que quedaron por decir se dormirán
Junto a las manillas de un reloj despejarán

A voz rebelde de Jeanne e as fabulosas mãos de Vincent numa bela recriação do clássico dos anos 70.
Em repeat. Mi olvidarás? Mi olvidarás? Em repeat.

A essência do vinho


O Palácio da Bolsa procura trabalhos de amor pelo tilintar abundante e assaz persistente dos copos que por lá se bebem por estes dias. Há um exército imprevisto de carne e de bocas sorridentes à espera de beijos, a imagem de marca dos vintages em cima das bancadas oferecidas de cada uma das castas. Há também outros, mais maduros, capazes de surpreender no líquido, despindo-o, ameixas, especiarias, frutos, travos de ingredientes inomináveis (até alguma filosofia) e outras delícias tais, atravessadas naqueles corredores encardidos de história.


3.3.09

Matosinhos



A janela dos dias, nas manhãs bem cedo, quando os marinheiros chegam da pesca e as gaivotas, esfaimadas, os perseguem sem tréguas.

Rigoletto


Ir à ópera é também uma tragédia que deve ser preparada com afinco semanas antes do acontecimento. Eu preparei a minha. Enlutei-me durante dias, sabendo à partida que no dia previsto, uma quarta-feira pelas 21h30, teria de me despachar para chegar à hora prevista.
As coisas, ao contrário das famosas árias de Verdi, nunca acontecem como o previsto. Por isso, no dia, à hora mencionada, eu estava ainda a tentar à força fugir da sala da aula, fechar a escola e correr, voar para a porta da Casa da Música, sem me atrasar. Não resultou. Tive por isso de correr mais do que aquilo a que estou habituada. E praguejar mais do que já me ouviram. Nada de mais.
Cheguei, evitando olhar para o relógio (que devia apontar para uns quinze minutos depois da hora) ofegante, o coração já fora do sítio, a sentir-me vitoriosa pelo feito que acabara de conseguir. Nem Nike teria sido capaz de tal proeza. Fui acolhida por um bando de jovens bem fardados que me vieram receber à porta. Estranhei, é claro. Estavam vestidos como numa ópera, precisamente, e prontamente me explicaram que não estava atrasada, mas sim adiantada. Adiantada para a segunda parte uma vez que seria impossível a minha entrada àquelas horas. Regras são regras e não adiantaram muito os meus quarenta e cinco bons argumentos. Sou tão teimosa! Em contrapartida, perante as minhas assombrosas lágrimas por perder a primeira parte do Rigoletto, (suspeitaram vivamente do meu equilíbrio psiquíco, mas não ousaram verbalizá-lo) julgo que os senhores fardados sentiram algum peso de consciência. Não que tenham reconsiderado os meus quarenta e cinco argumentos, mas foi evidente que a certa altura procuravam uma solução harmoniosa que me apaziguasse a dor. Jantar, por exemplo. Não era assim tão má ideia. Ver Rigoletto de estômago vazio era capaz de ser pior.


1.3.09

A tragédia


O coração roído, como uma maça dura, sangra lágrimas amargas. O amor é uma dor persistente que não perdoa, seja qual for a casta dos amantes.


27.2.09

Rhapsody for the weekend


I want to be loved by you, nobody else but you.

A tua ausência


A tua ausência é uma maneira impossível de o meu coração arder impermeável às estações da chuva, singrando, de vento em popa pelo abandono destas duas semanas.

Visões da minha janela


Às vezes os teus passos ecoavam no corredor da minha memória. Como se estivesses a caminhar-me no cérebro. E daí começava, insensato, o meu coração a palpitar cada vez mais rápido. A ansiedade era um fruto maduro pronto a cair da árvore à tua espera entre a bruma das manhãs e o nevoeiro que caía nas noites ao pé do mar.

Princípio da Ressureição



Sterben Werd ich um zu Leben?

A propósito de Gustave Malher e dos homens que nunca morrem.

Pele hirsuta e sol ardente




25.2.09

Andorinhas - o novo ciclo


Não sei se já repararam nesses bandos de andorinhas que devagar, subtilmente, começam a avistar-se pelos céus, por estes dias...


24.2.09

Seja dito o que o coração impele


Como num fado, trago o peito cheio de saudade. Um festim doentio de melancolia que por aqui vai a esta hora, a que tantos chamaram a dos mágicos cansaços. Os dias são cada vez mais longos, prolongam a espera num riso de escárnio, quase alheios à vida humana. Tudo cresce, como um clamor de Verão a antecipar em mim a ventura que trará o próximo comboio das cinco.

18.2.09

Na orla da noite


Dardeja entre o teu riso um frémito instantâneo de ciúme que eu sorvo devagar enquanto te contemplo. Sei-te susceptível de amar e de ser amado e percebo que é unicamente por pudor que não pronuncias os lugares comuns do corpo. Na verdade, terás outros sobressaltos nocturnos em que pensar: a febre, as dúvidas, as dávidas, os orifícios, o regresso, o futuro, as férias, o desejo, o sexo.
Não há nada mais sublime que a noite. Nela, finalmente, fazem sentido todas as contradições.


Malaca, o longínquo Oriente II


Portugal é um país pequeno de moderada fertilidade. No século XV a sua população era estimada em cerca de um milhão e os seus principais produtos e exportações consistiam em vinho e cana-de-açúcar, que crescia rapidamente. Tivessem os portugueses podido antever uma análise claássica comparativa de David e Ricardo e teriam prosseguido nesse rumo sensato, a cuidar da própria vida e negociando os seus produtos naturais em troca das manufacturas d eoutras nações. Em vez disso, esquivaram-se a seguir o destino que a racionalidade lhes apontava e converteram a sua terra numa plataforma para o império.

David Landes, A Riqueza e a Pobreza das Nações

Malaca, o longínquo Oriente




Milk




Vi Milk há duas semanas atrás. Não creio que o esqueça tão cedo. Não só pela luminosa direcção de Gus van Sant e pela imprevista actuação de Sean Penn, como pela sentida e romântica homenagem que se adivinha a Harvey Milk, o homem real. Posto isto, e perante notícias polémicas e afirmações disparatadas de líderes políticos e religiosos, sucede-me perguntar com estupefacção: há ainda algo a discutir em relação à naturalidade da homossexualidade?

Est-ce que ce monde est sérieux?

Pequeno guia para as pessoas sem passado


Evite aproximar-se de fotografias escondidas em armários velhos que já não abre há décadas. Não remexa muito o coração e respire devagar. Nunca volte a vestir a mesma camisola nos dias em que perdeu a fala e tolha-se de silêncio sempre que lhe fizerem perguntas que libertem fantasmas que sabe bem que existem no fundo de si. Queime tudo. As mesas, as cadeiras e sobretudo aquela cama onde dormiu e fecundou nova vida. Parta, com violência, os copos onde bebeu vinho fermentado de uvas maduras (enquanto ouvia Nina Simone). Evite o mar e abandone esse gosto vil pelo pôr-do-sol e pela aurora. As paisagens são contagiosas e provocam espasmos de desejo que mais tarde ou mais cedo inutilizam todas as funções do corpo humano. Evite fixar com atenção as suas veias. Despertam a memória e todas as histórias de amor falhadas que gostaria de ter tido e não teve. Nunca escreva, sobretudo nunca escreva. Não aprecie arte e não ouça música. São estas as actividades que por excelência têm vida secreta, trazem um passado que não interessa a ninguém. Não lhe interessa sobretudo a si, que não o tem. De resto, não sinta palpitações e evite a luz. Não corra, não se mexa muito e nunca, sob pretexto algum, tente ser honesto. O segredo é que o passado é demasiado verdadeiro para ser inventado.


16.2.09

Welcome home, darling!




Esta será a casa do futuro. Se o futuro acontecer.

Fotografia roubada daquela que é a minha segunda (e muitas vezes primeira) casa. Sem autorização.


15.2.09

Queria dizer-te...


Primeiramente

Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.
Meu amor, amor de uma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca a minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca - e sempre a tua boca - comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.

Eugénio de Andrade, poeta de todas as minhas madrugadas

13.2.09

Música para o fim-de-semana




Walzer fur niemand.


Energia Solar


Chegaram os dias soberbos só para lembrar, àqueles que perderam a esperança, que depois da tempestade vem a bonança. Por instinto eu começo a antecipar a Primavera, a imaginar a areia debaixo dos meus pés nus e a desenhar biquinis nas folhas da agenda, quando estou distraída. O Inverno é uma doença que se agrava com a idade. É cada vez mais insuportável para os ossos, para a pele, para os cabelos e para as mãos. Eu sou uma borboleta envelhecida, sensível às aragens, e estou saturada de me esconder destas ventanias e tempestades que coarctam todos os meus sonhos embrionários. Por isso nestes dias sou feliz. Já não há palidez em mim e os sorrisos voltaram-me ao rosto com abundância.


12.2.09

Je t'aime


Meu amor, os beijos prometidos desta noite eram fulvos ou ligeiramente azulados. Eram plenos de seiva, sílaba a sílaba. Andaram perdidos, mas a descoberto, sob o meu olhar, plenos dos desenhos que fiz de ti, fora do teu corpo mas a tentar entrar. A lombada do teu peito era tão perfeita que subitamente me sei a descrevê-la com saliva. Inspirar, expirar. Ofegante, aguçado, afogado. E esses beijos prometidos desta noite, meu amor, andaram de boca em boca, irrequietos e doentes e havia tanta gente a acender-se entre nós de minuto a minuto e nós a enxotarmos os nomes para ficarmos sós. Rais parta que a debandada demorou. (tu es la vague et moi l'île nue). Traziam um rio na tua língua que desaguava num fogo bioquímico no meu peito. Ui. Tantos beijos que se alimentaram assim de coisas comezinhas e de geografias indiscretas, sem papas na língua. Tantos beijos insuspeitos a abraçarem-se a nós. Ui. De boca em boca (je vais et je viens entre tes reins). E não adianta negar vertigens nem tentar descobrir a porcaria do botão que gere a linha do desejo. Não adianta querer ser lúcido e apaixonado ao mesmo tempo e esmagar a paixão com a língua contra o céu da boca, como quem chupa rebuçados de mentol. Não adianta recorrer aos santinhos da carteira. Não adianta. Há que escolher, valha-me deus, para que finalmente os deuses possam descansar as teias imemoriais do destino. Num jogo de consolo que há-de ser castigo, já se sabe.


London, London




A foggy day, in London town
It had me low, and it had me down
I viewed the morning, with much alarm
The British Museum, had lost its charm

How long I wondered, could this thing last
But the age of miracles, it hadn't past
And suddenly, I saw you standing right there
And in foggy London town, the sun was shining everywhere

(e foi assim esse passeio nublado com Billie Holiday pela mão)


Em Londres, os marinheiros têm saudades do mar.

Perguntas pertinentes em dia de aniversário





If you had an idea that was going to outrage society, would you keep it to yourself?

9.2.09

Refluxo


Não se percebe quem são, mas à noite procuram um pretexto que evite, com coerência, a solenidade dos dias intermináveis de Inverno. Dentro dos espaços escuros, depois de entrarem, sobe entre as pernas o calor da nudez por baixo de meias rendadas que não cumprem propósito nenhum. A não ser contrastar com o vento uivante que se sente perto das frinchas das janelas. As mulheres aglomeram-se à porta das fantasias. Alguns homens perfumados também. A camisa entreaberta até à altura mágica dos pêlos. Há um coro de ais e de ohhhs quando tu entras, indeciso entre os sexos, na minha galeria de personagens de sonho. Que disparate. Arde o sexo diante de nós e corremos que nem doidos ante o medo escorrido do sangue. Não há duas caras iguais que nos defraudem na confusão, que nos impeçam de cair no momento de escolher caminhos. E penso, descarada e imprudentemente, a certa altura, enquanto seduzo o homem por detrás do bar, que no fim do sonho estarei apaixonada e será, como sempre é, um caminho de retorno árido.

Oráculo de Berna


Transational Analytics: Le jeu que vous avez commencé est dangereux.

O som da chegada


Tenho pensado muito nisto: na palavra-chave que foi o meu passaporte para que se abrissem os teus portões. Julgo às vezes distinguir, entre a amálgama de palavras que trocámos, essa outra essencial que accionou o mecanismo, subtilíssima, repto para o fim hermético que te cercava. Penso muitas vezes nisto, nessa pedra de jade, que te acercando do coração, quis ser contemplada antes de se desfazer tremendamente num sopro.


3.2.09

Música para o fim-de-semana (prolongado)




A propósito de viagens, de música, de mau tempo, boas e más notícias.

1.2.09

Coração deslumbrado


Cuidado na viagem: levas o meu coração nas tuas mãos.

31.1.09

Gib mir Honig!


Aproxima-se a noite. Eu não escureço. Pelo contrário, sou um arquipélago de luz madura à espera. O meu sangue é cada vez mais espesso e circula com dificuldade no sentido norte-sul. Os sinais ajoujam o meu desassossego. Como estas mãos, estas pernas, estes braços e esta curva à altura da anca que são nervosos a cada movimento subtil. O olfacto, que é mais sensível, sugere que algo vai acontecer. O inquieto nervosismo estampa-se um pouco na frequência com que abano as mãos no ar em busca de gestos expressivos que desviem o meu olhar do delírio.
Ah, como sou péssima actriz depois de tantos anos de treino.

Vicky Cristina Barcelona




As minhas preferências cinematográficas são aleatórias e independentes dos críticos de cinema (e dos outros críticos todos também). Os meus critérios de selecção são sentimentos vagos onde só joga o meu livre arbítrio (sei que Marx se riria de mim com sarcasmo e sem piedade, mas eu gosto de viver de ilusões e evito Marx sempre que posso). Assim, Vicky Cristina Barcelona é um filme de argumento superficial e incongruente que me enche completamente as medidas. O contrário seria impossível para quem, como eu, aprecia a beleza, a luz, a ironia e o ritmo.

"bar-lost-drinking-a-lot-lonely" persons


A rapariga era bonita e estava sozinha. Cruzava a perna desinteressada. Se eram visíveis as rendas das meias? Que interessava isso? Tinha os olhos vermelhos e a pele brilhante. Já não havia rouge nos lábios e, quanto ao resto, era uma pintura desfeita. Lágrimas. Pois com certeza. Há sempre muitas raparigas que se comovem perante a sua solidão, sobretudo quando se embriagam com margaritas mexicanas no balcão de um bar frequentado por intelectuais de segunda (sempre fantasiei os intelectuais de segunda, mas isso é outra história). Não lhe interessava cruzar-se com os conhecidos do costume. Que porra, então não se pode estar sozinha? Os outros, os desconhecidos, interrogavam com o olhar. Estaria à espera de alguém que não chegava? Era o mais comum e ela tranquila perante essa perspectiva deixou-se estar no engano. Que ninguém a incomodasse, era-lhe suficiente.Tudo o que queria era que não lessem a verdade.

30.1.09

Crónicas de viagem





...quero que saibam que desde que Deus fez Adão nosso primeiro pai até ao dia de hoje, nem cristão nem pagão, sarraceno ou tártaro, nem nenhum homem de nenhuma geração viu, nem explorou tantas maravilhosas coisas do mundo, como fez o senhor Marco Polo. E, porém, cuidou que seria um grande mal se não registasse em livro todas as maravilhas que viu, para que quem não sabe as conheça por livro.
E assim vos digo que ele viveu por aqueles países durante uns vinte e quatro anos; o qual depois, estando na prisão de Génova mandou escrever todas estas coisas ao senhor Rustichello de Pisa, o qual se encontrava preso no mesmo cárcere no ano de 1928 depois de Cristo.

Marco Polo, Viagens


29.1.09

Frases com sentido


Nunca mais é sábado.

Oráculo de Lisboa


Une-nos a geografia de uma cidade que por ironia cruzou as nossas ruas. Os teus lugares comuns são agora os meus trilhos, que atravessam o desejo. No caminho, primeiro, a curva que sobe ao longo de um edifício branco, pisos e mais pisos de mesas, cadeiras e pessoas. Muitos telefones. Depois descemos, avançamos cruzamentos e ensinas-me a pronunciar algumas palavras rebarbativas. Falámos. Alguns cruzamentos e rotundas depois, subimos ruas polémicas, calcetadas, paralelos, árvores que serão frondosas no Verão. Estou atenta. Os meus olhos são músculos tensos, minúsculos músculos numa tensão centrífuga que quer decorar o mundo. O teu mundo. O Hotel de um lado, o bar do outro. Nesse instante a tua voz traduz sorrisos inextinguíveis que disfarças rudimentarmente. A memória não é morosa: é veloz. Alcança as imagens antes do carro e da voz e constrói projectos que ainda são obscuros porque não ousamos pronunciá-los. Para já, remamos entre o ruído excitado dos nossos pensamentos. Há um buraco gigante no futuro que preenchemos de estratégias apaixonadas. Por exemplo, lambo cada um dos teus dedos, estremecendo a cada centímetro. Sei que sabem a uma doçura de flores. Mas amanhã tudo será raso e recomeçaremos novamente a aprender os sabores dos mesmos dedos derramados. Sempre como virgens estremecidas perante o corpo.

O Jardim


Dormes. Eu velo-te. Dormes ainda. Os teus pensamentos são inseguros nos instantes que precedem a vigília. Eu velo-te. Respiras fundo antes de pronunciar as palavras. Continuo à escuta. Momentos antes celebráramos a sinceridade, felizes por podermos ser dementes na sinceridade. Parece evidente que, desta vez, o jardim que construímos não tem espinhos embrionários.

26.1.09

O fogo também esvoaça


Desenhamos com perícia no espelho uma geometria particular, feita de seiva, só para testar se a imagética das minhas coxas é tão táctil como as tuas mãos.
Só um sussurro arde nos meus ouvidos: hei-de habitar o teu corpo antes que o sol se ponha.

25.1.09

La mer au plus près


"Seuls aussi avec l'horizon. Les vagues viennent de l'Est invisible, une à une, patiemment; elles arrivent jusqu'à nous et, patiemment, repartent vers l'Ouest inconnu, une à une. Long cheminement, jamais commencé, jamais achevé... La rivière et le fluve passent, la mer passe et demeure. C'est ainsi qu'il faudrait aimer, fidèle et fugitif. J'épouse la mer."

Camus, L'Eté (1959).

24.1.09

A promessa da CP




Próxima paragem: mudar a sua vida.